O Desenvolvimento da Autonomia Moral – Parte III

O Desenvolvimento da Autonomia Moral – Parte III

Mais do “como se faz”?

Enfim, que outras práticas e cuidados podem nos aproximar mais da construção da autonomia moral com nossos jovens?

  • O exercício da coerência entre o que se faz e o que se fala/pensa talvez possa ser nossa base e ponto de partida para tudo. Para Vinha e Montovani de Assis (2008), a ética deve estar sempre presente, um ambiente sociomoral precisa de experiências vividas efetivamente com valores morais, propiciando uma atmosfera cooperativa e compassiva. A moral precisa ser apresentada como objeto de estudo e reflexão, se desejamos formar jovens que ajam moralmente. Neste contexto, os conflitos são oportunidades reflexivas que não podem ser desperdiçadas, oportunidades para que os princípios, os valores, as regras e as ações sejam objeto de discussão e reflexão. Os conflitos são verdadeiras pistas daquilo que precisamos aprender.
  • Em situações de conflito e no cotidiano, falar de sentimentos, necessidades e manter uma comunicação autêntica também são importantes investimentos. Partilhar saídas, buscar o que “cada um precisa” e o que “cada um oferece” para melhorar o ocorrido são pontos fundamentais.
  • Exercitar saídas não punitivas e o não julgamento diante do que ocorreu, pode ensinar muito a cooperar, compartilhar, respeitar e incluir.  São valores essenciais para ser mais feliz e viver relações mais sensíveis e produtivas.
  • A troca honesta de pontos de vista sobre um comportamento que queremos melhorar, trazendo as consequências do ato à tona para reflexão, pode colaborar muito com o desenvolvimento da autonomia moral. Por exemplo, a criança terá a possibilidade de pensar sobre a importância de honestidade somente se, ao invés de ser punida por contar mentiras, ela for confrontada com fato de que outras pessoas não podem acreditar ou confiar nelas (KAMII,1992).  Temos que considerar esta proposta como algo muito próximo do bom e velho diálogo, honesto e autêntico. Uma possibilidade de trazer à tona a consequência direta e material do ato, ao invés de apostarmos em relações arbitrárias entre o comportamento que queremos corrigir e a consequência. Quem já não ouviu alguém suspender a sobremesa de uma criança em função de uma mentira? Como chega para a criança o entendimento desta relação? O que ela aprende com isso em termos de valores, princípios, comunicação e troca honesta de pontos de vista? Se diante de uma mentira, o adulto entende que pode privá-la da sobremesa, o quão isso é mais educativo do que olhar a criança diretamente nos olhos, com grande ceticismo e afeição dizer: – ‘Realmente não posso acreditar no que você está me dizendo porque…’? Para Kamii (1992), “este é um exemplo de uma troca de pontos de vista que contribui para o desenvolvimento da autonomia nas crianças. A criança que percebe que o adulto não pode acreditar nela, pode ser motivada a pensar sobre o que deve fazer para ser acreditada. A criança educada com muitas oportunidades semelhantes a esta pode eventualmente, construir para si própria a convicção de que é melhor para todos serem honestos com os outros”.
  • A reparação do que ocorreu também é um gesto simples e de muito aprendizado.  Sujou? Vamos limpar? Bagunçou? Vamos organizar?

Reparar o ocorrido sustenta uma relação direta com o comportamento que se quer melhorar por ética, por respeito…Afinal, a atitude de “pôr no lugar” envolve “deixar para o outro como você queria ter encontrado, se fosse para você”.

  • Para Kamii (1992), outras possibilidades, como privar a criança da coisa que ela usou mal, pode guardar relações muito mais educativas e diretas do que as punições e recompensas. É muito mais esclarecedor para criança, em termos de construção de valores, só poder usar o quarto de brinquedos novamente se o mantiver arrumado (mais especificamente, arrumar o quarto bagunçado para ter o direito de brincar novamente) do que não poder passear no final de semana por causa da bagunça do cômodo. Essa relação clara e direta entre o ocorrido e a consequência, que ajuda a criança a compreender os valores e princípios que estão em jogo, são chamadas de “sanções por reciprocidade” e se diferencia de qualquer tipo de punição. Põe limites ao mesmo tempo que evita a revolta, a conformidade cega e o cálculo de risco presentes em uma educação punitiva, regulada por fatores externos sem garantia de reflexão e permanência do comportamento corrigido.

Em vez de investirmos nossos esforços na contenção e nas punições mais severas, sugerimos dirigir nossos olhares para o desenvolvimento, construção de valores e princípios morais centrais. Nesta perspectiva, a ética é considerada “vacina e não remédio”, necessitando de uma contínua vivência de cidadania e de um ambiente sociomoral cooperativo, compassivo, dialógico e reflexivo (VINHA; MANTOVANI DE ASSIS, 2008).

Com ética, justiça, coragem, respeito, generosidade, gratidão e demais virtudes fazendo parte do clima moral dos ambientes educativos em geral, há de termos sucesso na construção da autonomia moral e de uma mudança que queremos ver no mundo!

Fontes:

VINHA, T.P; MANTOVANI DE ASSIS, O.Z. O direito de aprender a conviver: o ambiente escolar e o desenvolvimento da autonomia moral segundo a perspectiva construtivista. Anais do XXIV Encontro Nacional de professores do PROEPRE, Aguas de Lindóia, 2008.

KAMII, Constance. A criança e o número. Rio de Janeiro: Papirus, 1992.

maegirafa

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