O Desenvolvimento da Autonomia Moral – Parte II

O Desenvolvimento da Autonomia Moral – Parte II

Por onde se começa? Como se faz?

Se escolhemos a perspectiva da autonomia moral, saibamos que não teremos respostas de tão curto prazo se comparamos com as medidas de controle. Punições e premiações, por exemplo, podem surtir efeito mais rapidamente do que as ações de cunho reflexivo. Nosso ganho não está no tempo, está na permanência do comportamento guiado por princípios e valores internos e fortes, que primam pela coerência teórico prática das ações, independente do contexto e das circunstâncias.

Isso posto, pensemos: o que muda na educação dos nossos jovens?

Para Vinha e Mantovani de Assis (2008), primeiramente, precisamos ter claro que a moralidade é construída e que depende da interação do sujeito com o meio ambiente. Ou seja, descentrar-se do seu ponto de vista, coordenar perspectivas diferentes, pensar por hipóteses, argumentar e defender suas ideias testando sua consistência, dialogar, refletir, exercitar posicionamentos são bons caminhos interativos. Estas ações se fazem com o outro e com o meio.

Ações como estas, acima citadas, precisam do cognitivo, do intelectual mas isso só não basta para explicar a ação moral, é preciso também “querer agir bem”, ou seja, querer seguir o dever. Assim, precisamos mais do que a questão cognitiva (dever fazer), precisamos da dimensão afetiva (querer fazer). O valor é inevitavelmente um investimento afetivo. Pode-se dizer   é o valor é aquilo que nos move ou nos faz agir.

Assim sendo, há de se refletir sobre a qualidade moral do ambiente no qual o indivíduo interage e, na mesma medida, na educação moral que está recebendo olhando, inclusive, para as mensagens subliminares presentes.

Vivemos permeados de valores morais (como justiça, veracidade, generosidade, respeito, dignidade, honestidade) e não morais (como beleza, sucesso, riqueza, popularidade). É o conjunto destas representações que constitui a personalidade, estruturando a autoestima e o auto respeito de cada indivíduo. No entanto, segundo LaTaille (2006) estes valores não estão “soltos”, mas compõem um sistema no qual os mais fortes (centrais) predominam sobre os menos fortes (periféricos). Podemos pensar que uma pessoa pode dar mais valor à riqueza do que à honestidade. Desta forma, a representação de si ligada ao enriquecimento financeiro é central e as representações relacionadas aos valores morais são periféricas. Essa pessoa se sentirá muito mais envergonhada ao se ver como pobre do que ao se ver como desonesta.

O que se propõe é que a organização deste sistema seja amplamente discutida, dialogada, refletida, revisitada nas ações e em cada acontecimento do dia a dia de pais e educadores. Que os acontecimentos, as decisões tomadas, as histórias de vida compartilhadas, a troca honesta de pontos de vista, o pensar conjunto sobre as consequências do que se quer e se faz, os posicionamentos, a escuta e o diálogo sinceros nos sirvam para organizar e reorganizar este sistema de forma que os valores morais sejam centrais e os não morais sejam periféricos, por convicção e por escolha. Trata-se de tornar estes valores morais centrais tão fortes a ponto de, por exemplo, quando uma ação é coerente com a honestidade que um indivíduo idealiza, gera-se um sentimento de honra e de dever cumprido que, independente das circunstâncias, se mantém forte na decisão e no comportamento desta pessoa, sem sombra de dúvidas.

Como se vê, “a moralidade é algo mais amplo do que saber quais são as boas leis, as normas justas ou como se deve agir em determinada situação: a moralidade implica em muito mais do que simplesmente obedecer a certas regras ou leis e não a outras, implica em refletir no por que segui-las (MENIN, 1996) ”.

Trouxemos aqui um avanço sobre os conceitos de moralidade. Por estas reflexões tivemos a oportunidade de pensar que uma educação pautada na obediência à autoridade e em medidas de controle (recompensas, punições etc) poderá modificar ações externamente, mas dificilmente contribuirá para situar os valores em um lugar central no sistema de representações de si. Só a ocupação destes valores morais em um lugar central no sistema acarretaria atitudes coerentes com os mesmos, independentemente das pressões do meio exterior.

Para refletirmos mais sobre as práticas que podem nos aproximar da autonomia moral, sigamos para a parte III deste tema.

Fontes:

LA TAILLE, Y. Moral e ética: dimensões intelectuais e afetivas. Porto Alegre: Artemed, 2006.

MENIN, M.S.S. Desenvolvimento moral: refletindo com pais e professores. MACEDO. L (org). Cinco estudos de educação moral. São Paulo, Casa do Psicólogo, 1996.

VINHA, T.P; MANTOVANI DE ASSIS, O.Z. O direito de aprender a conviver: o ambiente escolar e o desenvolvimento da autonomia moral segundo a perspectiva construtivista. Anais do XXIV Encontro Nacional de professores do PROEPRE, Aguas de Lindóia, 2008.

maegirafa

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